>Porque medicina alternativa "funciona"

>Antes, duas observações: 1.Esse post é sério, não é ‘pegadinha’. 2.Pessoalmente considero medicina alternativa variando entre “besteira deslavada e perigosa” no pior caso, no melhor caso “insignificantemente melhor do que o efeito placebo misturado com erros de percepção/julgamento”.
Uma prática médica é chamada “alternativa”, se for baseada em métodos, tratamentos ou conhecimentos não tradicionais ou não cientificamente testados. Medicina alternativa é frequentemente baseada em crenças “metafísicas” e é em muitos casos até “anti-científica”. O nome “alternativa” pode levar a enganos, porque pode aparentar que é uma opção equivalente e aceitável em resultados como a medicina científica ou convencional. A maioria das práticas alternativas são charlatanismo, mesmo quando praticadas por adeptos sinceros. Quando uma medicina alternativa é oferecida junto com a medicina científica, costuma ser chamada de medicina “complementar”.
Medicina alternativa é hoje em dia um negócio bilionário. Muitos planos de saúde começaram a oferecer cobertura para alguns tipos. Algumas escolas de medicina inclusive tem cursos sobre alguns (ex: homeopatia, que é pseudo-científica e acupuntura).
A homeopatia por sua vez é tão disseminada que quase nem é considerada como “alternativa”, e sim científica (apesar da ciência dela não ser nada científica). Muitos não conhecem a história da homeopatia, e é uma ótima leitura para provocar riso de quem tenha bom senso e uma pequena noção científica de escola primária.
Outras terapias alternativas são ‘técnicas de relaxamento, quiropracia (muito comum nos EUA), medicina “herbal”, e também “cura divina” (disponível em várias igrejas ‘especializadas’ no assunto).
Pouquíssimos estudos de alto calibre científico são realizados por praticantes das medicinas alternativas. Quando fazem, raramente usam grupos de controle, amostras suficientes estatisticamente, ou usam métodos que impedem que os pesquisadores saibam quais amostras são de controle (ex: testes blind e double-blind).
No Brasil e em países em que as drogas são caras, temos também o mercado “pirata” de remédios. Muitos contém princípios ativos reais (obtidos em fábricas de produtos químicos na China) sem qualquer controle de qualidade (podendo ter erros absurdos de dosagem e contaminações). Esses remédios são usados para alimentar tanto o mercado paralelo de remédios e também o mercado “alternativo”. Hoje em dia é comum ouvir sobre os “fitoterápicos”, “remédios naturais”. Esse mercado pirata embala esses componentes vendendo como se fossem remédios “naturais” (como se natural ou das plantas fosse melhor que uma droga produzida a partir das mesmas ou sinteticamente, após anos de estudo e purificação). As propagandas destes remédios podem soar científicas, mostrando estudos científicos interpretados erroneamente ou falsificados. Uma lista importante feita pelo “Procon” americano para ajudar a identificar possíveis charlatanismos:

  • a propaganda promete cura rápida e efetiva para uma grande variedade de doenças
  • utilizam palavras como “milagroso”, “descoberta científica”, “produto exclusivo”, “ingrediente secreto”, “remédio milenar”
  • o texto geralmente é escrito em “medicinês” , com termos que impressionam tecnicamente para esconder a falta de “boa” ciência.
  • o vendedor alega que o governo ou profissionais médicos ou cientistas estão conspirando para suprimir o produto.
  • a propaganda geralmente inclui relatos de casos (não documentados) de resultados fantásticos.
  • o produto geralmente é disponível apenas em um fornecedor.

A regra que quase sempre funciona é: “Se é bom demais para ser verdade, então provavelmente é”.

Então, porque medicina alternativa é tão popular ?

Foi feita uma pesquisa em Janeiro de 1993 (The New England Journal of Medicine) que mostrou que aproximadamente um terço dos americanos adultos procurou algum tipo de terapia não ortodoxa no ano anterior.

Alguns motivos:

  1. Cirurgia , e em vários casos até remédios e drogas, não são usados nas terapias alternativas. O medo de cirurgia e dos efeitos colaterais dos remédios afastam muitas pessoas da medicina científica. As terapias alternativas são atraentes porque não oferecem esses métodos “assustadores” de tratamento. Medicina científica sempre pode causar algum dano (seja em efeitos colaterais ou erros médicos). Tratamentos alternativos são inerentemente menos arriscados e com menos chance de causar dano  direto (exceto quando o paciente deixa de procurar um tratamento adequado e comprovado em favor da terapia inócua).
O “Pensamento Seletivo” (quando as pessoas selecionam evidências favoráveis e ignoram evidências desfavoráveis a uma crença) ou “Tendência à confirmação” (inerente ao ser humano… é mais fácil logicamente guardar informações que confirmam alguma tese do que as que são contra), podem levar as pessoas a focar em casos aonde um cirurgião amputou o membro errado, removeu a parte errada do cérebro, matou ou causou danos irreparáveis ao administrar muita anestesia ou radiação, ou em casos de problemas que não são culpa do médico, como choques anafiláticos. Muitas pessoas ignoram os milhões de pacientes que estão vivos em bem graças à cirurgia ou remédios convencionais. A quantidade de erros médicos (diagnóstico errado, incompetência, acidente) é bem palpável.
Em contrapartida, os riscos de danos diretos por métodos alternativos como homeopatia por exemplo, é mínimo comparado com os riscos causados por drogas poderosas ou cirurgias arriscadas. Isto porque a  homeopatia não está intervindo de modo significativo. As doses envolvidas provavelmente não causariam efeitos adversos em ninguém. O dano real causado pelas alternativas não é direto, e sim causados por não buscar o tratamento (remédios ou cirurgia) que poderiam melhorar a saúde ou pelo menos aumentar as chances de vida.
Apesar de ser verdade que medicina científica tem riscos, até fatais em alguns casos, isso não é motivo para rejeitá-la. Pessoas minimamente racionais não podem ignorar diabéticos estão vivos e bem graças a seus remédios, os milhões de pessoas que devem suas vidas a vacinas; não podem ignorar milhões salvos por cirurgias bem sucedidas, etc.
O modo correto de reagir aos riscos inerentes dos tratamentos da medicina convencional, que usam tratamentos cientificamente atualizados, é ser responsável pelo tratamento. Um paciente responsável não pode ter fé CEGA no seu médico, não importa quanto “endeusado” ele pareça. Uma piada bem conhecida diz que 50% dos médicos pensam que são Deus. O restante tem certeza!. O paciente tem que ter perguntar, discutir e ter conhecimento das drogas envolvidas no tratamento, tem que participar do tratamento. Não podemos simplesmente assumir por exemplo, que um remédio trazido pela enfermagem seja realmente o remédio que o médico receitou; uma simples pergunta “O que é isso mesmo ?” já ajudaria a evitar um erro.
Precisamos segundas opiniões (ou terceiras…), mas isso não significa procurar outro médico até achar algum que você ouça o que quer ouvir… significa que é preciso pesquisar. Podemos reduzir os riscos sendo mais responsáveis e menos passivos. Temos que ter “fé” na competência do médico, mas não fé CEGA. Existe uma história engraçada sobre um pessoa que teria que amputar uma perna, e escreveu com uma caneta na outra perna “Essa é a perna boa”. A idéia é essa.
  2. A medicina convencional frequentemente falha em descobrir as causas de alguma doença ou livrar a pessoa de dores. Isso acontece na medicina alternativa também. A diferença é que os alternativos tem maior tendência a sempre encorajar seus pacientes mesmo que o tratamento ou remédio falhe e não há esperança.
  3. Quando a medicina convencional descobre a causa de uma doença, as vezes falha em prover um tratamento garantido a funcionar. Novamente, a medicina alternativa também, mas geralmente seus adeptos insistem que “a coisa vai funcionar”.
  4. Medicina alternativa geralmente usa remédios ditos “naturais”. Muitas pessoas acreditam piamente que “natural” é necessariamente melhor e mais seguro do que um remédio dito “artificial” , como remédios farmacêuticos (que muitas vezes vem de fontes naturais, mas foram purificados ,pesquisados e testados por anos). Veneno de cobra, chumbo, urtiga são exemplos de coisas naturais… E existem também muitas substâncias naturais que são absolutamente inócuas.
  5. Medicina alternativa é mais barata. Esse fato tornou as terapias alternativas atraentes para os planos de saúde que viu que é mais barato e portanto mais rentável oferecer tratamentos alternativos. Na verdade, o fato de serem mais baratos não tem real significância, porque os tratamentos alternativos não são realmente “alternativos”, ou seja, não oferecem tratamentos igualmente efetivos.
  6. Muitos médicos que usam medicina científica costuma tratar a doença primeiro e a pessoa depois. Os médicos alternativos sempre alegam tratar “holisticamente”, ou seja, tratar a mente , o corpo e a alma do paciente. Muitas pessoas são atraídas pela aspecto metafísico e espiritual dos médicos alternativos. Muitas pacientes alegam que esse médicos às vêem como pessoas e parecem se importar, enquanto faltam “boas maneiras” aos médicos tradicionais. Essa fato é propagandeado pelos próprios médicos alternativos e pelos pacientes adeptos.
Médicos tradicionais geralmente trabalham em grandes hospitais ou instituições e as vezes atendem centenas ou milhares de pacientes. Médicos alternativos geralmente trabalham em pequenos consultórios e atendem poucos pacientes.
Outro fato importante é que quem procura a medicina científica não se importa com as crenças pessoais do médico. O que importa é que o médico tenha conhecimento e experiência na área. Um médico “frio” ou indiferente é muitas vezes tolerado (tipo: Dr. House), desde que competente. Já um médico alternativo frio não iria durar semanas.
  7. Muitos aparentemente não entendem que a medicina científica tem os mesmos problemas de qualquer outra forma de conhecimento humano: é falível, mas também pode ser corrigido. Sistemas de pensamento que são fundamentalmente metafísicos não podem ser testados e portanto nunca podem ser provados como incorretos. Portanto, uma vez que se estabelecem, tendem a ser dogmáticos e dificilmente mudam. O único meio de mudar um dogma é se tornar um herege e criar seu próprio “anti-dogma”. Quando a medicina científica erra , ele tem meios de se corrigir. Tratamentos e práticas que são ineficazes ou perigosos podem ser abandonados e trocados por novas descobertas. Médicos e práticas alternativas são frequentemente baseados em “fé” ou na crença de alguma entidade metafísica (como o “chi” por exemplo). Na medicina científica sempre poderá haver discordâncias, controvérsias ou erros, discussões, testes e mais testes. Decisões serão tomadas por seres humanos falíveis engajados na medicina científica, que pode falhar. Algumas dessas decisões podem ser falhas, mas com o tempo serão descobertas e os tratamentos serão mudados e corrigidos. A medicina crescerá, progredirá, poderá mudar drasticamente.
No entanto, homeopatia, iridologia, reflexologia, aromaterapia, toque terapêuticos, etc. provavelmente nunca mudarão fundamentalmente ao longo dos anos. Os praticantes não se desafiam entre si como requer um método científico. Na verdade, eles apenas apoiam uns aos outros.
  8. Terapias alternativas muitas vezes apelam para o “pensamento mágico”. Medicina científica é muitas vezes rejeitada simplesmente por ser “humana”, não “mágica”.
  9. Mas a razão principal para quem procura a medicina alternativa é que elas “ACHAM QUE FUNCIONA”. Ou seja, eles se sentem melhor, mais saudáveis, mais ‘vitais’, etc., depois do tratamento. Para aqueles que dizem que ela “funciona”, isso geralmente apenas significa que elas são clientes “satisfeitos”. Para os médicos alternativos, clientes satisfeitos é tudo o que eles precisam para provar que são reais. Não há qualquer necessidade de prova científica.
Na maioria dos casos, a condição do paciente teria melhorado mesmo que ela não tivesse feito nada. Mas desde que a melhora ocorreu DEPOIS do tratamento, é suposto que a melhor foi causada pelo tratamento (falácia do “post hoc”, ou seja, se aconteceu depois de um fato, o fato é que causou o resultado; Ex: se eu invoquei o espírito do Javali galoupante e depois de algum tempo choveu, então choveu porque eu invoquei o espírito do Javali). Isso é absurdamente comum com as mães que tem crianças pequenas e dizem que: Ah, depois da homeopatia meus filhos não tiveram mais infecções de ouvido. Pergunte a qualquer pediatra, e ele dirá que depois de 4-5 anos de idade, esse tipo de infecção recorrente costuma regredir por si mesma. O último tratamento é o que leva a fama”, pois após o tratamento HOUVE A CURA. Também existe a “falácia regressiva” (mais ou menos como o citado acima). Muitas doenças tem períodos cíclicos em que existe melhora ou piora. Se o tratamento é tentado quando há um pico na piora, QUALQUER tratamento parecerá funcionar assim que houver melhora.
Uma outra grande parte dos casos é devido a nada mais do que o ‘efeito placebo’. Geralmente, na medicina científica , o remédio causa efeitos colaterais que podem fazer a pessoa se sentir mal num primeiro momento. Este é um outro motivo para a pessoa se sentir melhor quando abandona o tratamento científico. A pessoa se sente imediatamente “melhor” porque os efeitos colaterais se foram, e não porque o alternativo funcionou. Muitos casos, o remédio alternativo é tomado junto com o “tradicional”, e o crédito da melhora é dado ao alternativo.
Em muitos casos, a chamada cura se dá porque o paciente pode ter sido diagnosticado erradamente.
O fato da pessoa “sentir-se melhor” num primeiro instante é considerada prova de que a terapia alternativa está funcionando. Melhoras psicológicas de terapias não são idênticas às melhoras objetivas. A pessoa pode se sentir muito mal mas estar melhorando a médio prazo,ou se sentir bem e estar piorando. Exemplos clássicos são os casos de quimioterapia, quando funciona para erradicar o cancer, ou de drogados (se tomar a droga obviamente vai se sentir melhor, mas a síndrome de abstinência e os remédios usados para o tratamento fazem obviamente a pessoa se sentir mal.
A falácia regressiva é muito comum em pessoas com problemas de dores na coluna,etc. Geralmente procuram algo alternativo (acupuntura) quando a dor está no pico. Portanto, não teria como piorar.
  10. Por final, os adeptos da medicina alternativa geralmente não admitem ter falhado. Sempre dizem que não funcionou porque o paciente não o procurou a tempo. Familiares de pessoas que morreram tentando terapias alternativas geralmente não admitem que a terapia foi inútil. Esse tipo de fé é comum entre pessoas desesperadas e vulneráveis, que tem entes queridos a beira da morte.

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Sobre Sergio Paulo Sider

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Uma resposta para >Porque medicina alternativa "funciona"

  1. Lucia disse:

    >Profissional atencioso e profissional relapso existem em toda atividade. Mas é verdade que os "alternativos" parecem suprir melhor as nossas carências. Igualmente, às vezes, me dão vontade de rir.Concordo com quase tudo o que foi exposto em mais este texto de sabedoria. Para ser aprovado, o medicamento deve passar por uma série de etapas envolvendo testes químicos, de eficácia e toxicidade em modelos animais (pelo menos 2 diferentes) e humanos, entre outros. Um medicamento sério leva de 8 a 10 anos desde sua idealização até a liberação no mercado. E isso é pouco quando nos lembramos do desastre da talidomida. Duvido que muitos destes fitoterápicos tenham passado por isso. Mas não é que não existam. Eu mesma participei como revisora de um projeto de aplicação de princípios ativos de plantas para combater a verminose gastrintestinal em ruminantes. E o projeto era muito bom. A maioria dos fitoterápicos, no entanto, só tem uma embalagem melhor do que aqueles que a gente vê nos mercados centrais de cada cidade brasileira, tipo extrato ou óleo de não sei o que, que promete resolver da caspa à impotência sexual.

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